Safra de café 2026 expõe divergências entre projeções institucionais e percepções de campo

A safra de café 2026, com previsões de produção recorde, tem evidenciado divergências entre projeções institucionais e percepções de campo.
Enquanto consultorias, instituições oficiais e agentes de mercado apontam para uma recuperação expressiva da produção, muitos produtores relatam uma realidade mais cautelosa nas lavouras, marcada por impactos climáticos e incertezas quanto ao real potencial produtivo.
Do ponto de vista institucional, o cenário é de forte recuperação. O portal Notícias Agrícolas destaca que o Brasil caminha para uma safra potencialmente recorde, com estimativas superiores a 70 milhões de sacas.
No primeiro levantamento da Conab, a produção foi projetada em 66,2 milhões de sacas de 60 kg, volume 17,1 por cento superior ao da safra anterior, sendo 44,09 milhões de arábica com crescimento de 23,3 por cento e 22,09 milhões de canéforas com alta de 6,4 por cento.
A Hedgepoint Global Markets trabalha com números ainda mais elevados, entre 71 e 74,4 milhões de sacas.
A StoneX projeta 70,7 milhões, com 47,2 milhões de arábica e 23,5 milhões de robusta, ressaltando que a safra 2026/27 será decisiva para recompor estoques globais que foram reduzidos em mais de 22 milhões de sacas entre 2021 e 2024.
O Itaú BBA também aponta recuperação, estimando 69,3 milhões de sacas, embora mantenha a leitura de que os estoques globais seguem relativamente apertados.
Impacto nas cotações internacionais de café
Esse conjunto de projeções contribuiu para pressionar as cotações internacionais.
Segundo análise da StoneX, o café registrou forte retração semanal nas bolsas em meio às expectativas otimistas de oferta, tanto de arábica quanto de robusta.
No caso do robusta, além das boas perspectivas para o conilon brasileiro, dados recentes de exportação da Indonésia e do Vietnã reforçaram a percepção de oferta abundante na Ásia.
A combinação de expectativa de safra cheia no Brasil e maior disponibilidade internacional ajudou a desencadear o movimento de queda nos preços.
Entretanto, as percepções de campo revelam uma leitura mais moderada.
A Pine Agronegócios, após realizar um Tour do Café, identificou impactos climáticos que limitaram o potencial produtivo em determinadas regiões, mencionando efeitos de geadas, granizo e períodos de estiagem que afetaram tanto o arábica quanto o conilon.
A consultoria estima 44,213 milhões de sacas de arábica e 23,486 milhões de conilon, números que indicam recuperação, mas não necessariamente um recorde consolidado.
Produtores de café relatam menor rendimento
Nas redes sociais do setor cafeeiro, produtores relatam que, embora a safra possa ser melhor que a anterior, as altas temperaturas registradas em meses críticos e eventos climáticos pontuais podem reduzir o rendimento efetivo das lavouras.
Há também críticas às estimativas oficiais, com agricultores questionando se os números divulgados refletem integralmente a realidade vivida no campo.
Mercado exterior de café em queda
No comércio exterior, o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil informou que o país exportou 2,780 milhões de sacas em janeiro de 2026, queda de 30,8 por cento na comparação anual, com receita cambial de 1,175 bilhão de dólares, recuo de 11,7 por cento.
Segundo o Cecafé, a baixa nos preços iniciada em janeiro e intensificada em fevereiro está associada à previsão de boa recuperação da produção brasileira combinada à queda do dólar.
O recuo nos volumes exportados pode estar ligado a produtores capitalizados após anos de preços elevados, estoques de arábica limitados na entressafra e maior utilização de conilon e robusta para atender o mercado interno.
Impactos do mercado de café para o produtor rural
Essa divergência entre números projetados e percepção prática ganha relevância porque impacta diretamente as expectativas de preço e a tomada de decisão do produtor.
O mercado reage às estimativas amplas de oferta, pressionando as cotações, enquanto no campo muitos agricultores ainda lidam com variabilidade produtiva e custos elevados.
A cafeicultura continua exigindo investimentos significativos em fertilizantes, defensivos, mão de obra, energia e tecnologia.
Caso os preços recuem de forma mais acentuada diante da narrativa de safra recorde, a margem pode ser comprimida, elevando o risco de endividamento, especialmente para produtores que expandiram área ou intensificaram manejo contando com preços elevados.
Assim, a safra de café 2026 não é apenas um debate sobre volume produzido, mas um retrato da tensão entre projeções macroeconômicas e a realidade individual das propriedades.
Enquanto instituições apontam para recomposição de estoques e possível reequilíbrio global, produtores avaliam cautelosamente o potencial efetivo das lavouras e o impacto dos preços sobre sua rentabilidade.
O desfecho desse ciclo dependerá não apenas do volume final colhido, mas da capacidade do mercado de absorver essa produção sem comprometer a sustentabilidade financeira do produtor rural.











