O mercado do café voltou a apresentar tendência de baixa, com o arábica em Nova York pressionado pela oferta global, avanço das exportações brasileiras e queda dos preços nos principais vencimentos.

A análise de Marcelo Fraga Moreira, publicada neste sábado (31) na Archer Consulting, também destaca a atuação dos fundos, os níveis técnicos e o comportamento das opções para dezembro de 2026. Com a entrada de novas safras do Vietnã, Indonésia, Colômbia e outros países produtores, o cenário para os próximos meses permanece pressionado.

Para o produtor brasileiro, a recomendação é reforçar a gestão de riscos e avaliar estratégias de proteção diante da possibilidade de novas quedas.

Confira abaixo a íntegra da análise:

A semana começou tensa com o resultado das eleições no Brasil levando na segunda-feira o R$ para 5,60 R$/US$ e o vencimento dez-26 para os 294,90 centavos de dólar por libra-peso ( encerrou com -800 pontos de baixa @ 299,50 centavos de dólar por libra-peso). O Real chegou a cair -12% e o café apenas -3% dando um “ganho potencial” para o produtor em +9%! Esse “ganho” infelizmente não chegou nas mãos do produtor mas novamente o café arábica tipo 6 peneira 17-18 chegou a negociar novamente acima dos 1.700 R$/saca. 

No decorrer da semana NY dez-26 continuou caindo e encerrou @ 287,20 centavos de dólar por libra-peso (após negociar na mínima da semana @ 280,80 centavos de dolar por libra-peso) e Londres março-27 @ 3.193 US$/tonelada! (NY Dez-26: fechamento anterior / máxima / mínima / fechamento respectivamente @ 307,45 / 304 / 280,80* / 287,20 centavos de dólar por libra-peso – Londres Março-27: fechamento anterior / mínima  / máxima / fechamento respectivamente @ 3.229 / 3.133 / 3.228 / 3.193 US$/tonelada). 

NY dez-26 continua “brigando” para não perder a média-móvel dos 200 dias @ 285 centavos de dólar por libra-peso! Tentou romper na quarta e na quinta feira – chegando a negociar na mínima da semana @ 280,80 centavos de dólar por libra-peso – mas os fundos “comprados” ainda conseguiram salvar a posição “comprada”. 

Notar que todos os demais vencimentos em NY – março-27 até dez-27 – encerraram já abaixo da média-móvel dos 200 dias! E, mercado abaixo dessa média-móvel dos 200 dias indica “mercando com tendência e/ou mercado já em tendência de baixa”! 

Dez-26 ainda um vencimento critico pois no dia 12 de novembro acontecerá o vencimento das opções. Apesar de ainda existir uma posição “grande” nas opções de compra “call*”  "forea do dinheiro" notar que a posição em aberto nas opções de venda “put*” "já no dinheiro" estão muito mais interessantes: 

Apesar de existir uma grande posição de opções de compra “call*” notar que a posição das opções de compra "call*" começa a entrar novamente no dinheiro apenas acima dos 290 centavos de dólar por libra-peso. Em contrapartida, as opções de venda “put*” já tem praticamente 12.450 lotes “no dinheiro”, pressionando os preços ainda mais para baixo, com GRANDE POSIÇÃO no strike 280 / 270 e 7.000 lotes no strike 260 centavos de dólar por libra-peso!

O dez-26 continua sendo “a bola da vez”!

Porém, não é surpresa para os fundos + especuladores “vendidos” o fato do estoque certificado estar no patamar mais baixo dos últimos anos – próximo das 225.000 sacas! Você produtor, acredita mesmo que esses “fundos + especuladores” não estão acompanhando essa posição já há semanas? E que eles não tem um contra-hedge para a posição “vendida” deles? 

O cenário para o curto-médio prazo continua mostrando um mercado abastecido – independente do café estar nos “países de origem” quanto nos destinos. Para esse café armazenado no pais de origem chegar nos portos dos países consumidores, com uma boa logística, vai demorar 20-45 dias apenas. 

O Brasil deverá encerrar o mês de out-26 muito próximo e/ou com novo recorde nas exportações para o mês de outubro. Em outubro-24 o Brasil exportou 5,17 milhões de sacas e agora em out-26 deverá novamente exportar acima das 5 milhões de sacas. 

Notar que nos primeiros 4 meses da safra 26/27 (considerando que em out-26 o Brasil irá exportar 5,20 milhões de sacas) o Brasil terá exportado +16,28 milhões de sacas x 13.82 milhões de sacas no mesmo período julho-out-25 porém ainda abaixo das 17,36 milhões de sacas no período julho-out-24! 

A safra / colheita no Vietnam continua a pleno vapor. Notar que todos os vencimentos em Londres entre março-27-nov-27 também já encerraram abaixo dos 3.200 US$/tonelada! E os vencimentos março-28 e maio-28 também brigando para não perder o piso dos 3.100 US$/tonelada! 

Como venho falando há semanas: NÃO TEM COMO FICAR ALTISTA no médio prazo. No dezembro-26 ainda vejo possível um eventual repique em função da posição e da “briga de cachorro grande” entre os fundos comprados x fundos vendidos. 

Para os demais vencimentos e para os próximos 6-12 meses, com todo esse “mar de café” do Vietnam, Indonésia, países africanos, América Central e Colômbia entrando no mercado - concorrendo com a origem Brasil - nos próximos 30-90 dias (algo próximo das 115 milhões de sacas adicionais) não tem como não continuar “baixista”. 

Salvo, e sempre salvo, algum evento climático severo podendo afetar a próxima safra brasileira 27/28! Por enquanto o tão temido e esperado “El-Ninõ” não chegou. E os reflexos por enquanto são mínimos nos principais países produtores. 

As vezes vemos algumas “noticias plantadas”... tipo: Colômbia vai produzir 1 milhão de sacas a menor; “safra menor em Honduras e América Central”... Ora, 1-2 milhões de sacas em um mercado onde o estoque de passagem está previsto para aumentar nos próximos 2-3 anos para 39-60 milhões de sacas não tem grande impacto nas analises, nas apostas dos grandes especuladores. 

Então, como sempre, PRODUTOR proteja-se! 

Com juros elevados (e podendo subir ainda mais aqui no Brasil), R$/US$ podendo ir em breve para os 6 R$/US$, recessão no segundo maior país consumidor de café chegando... Será que o Brasil irá continuar consumindo 22 milhões de sacas/ano? Ou iremos cair para 18-19 milhões de sacas liberando mais 3-4 milhões de sacas para o mercado externo? 

Próximos 3-4 anos serão muito difíceis aqui no Brasil. 

Realizar operações de hedge, proteção para café arábica acima dos 1.600 R$/saca e para café conilon acima dos 950/1.000 R$/saca, na minha humilde analise, continua sendo uma excelente oportunidade que o “mercado” ainda está permitindo ao produtor. 

 No curto prazo o indicador “estocástico” indica mercado “sobre-vendido”, podendo dar um repique nos próximos dias. Porém, será o último “suspiro do morto”?? 

Produtor: faça sua gestão de riscos! Cuidado: Não alavanque sua posição. Proteja-se contra as quedas, contra o “pior cenário” pois o “cisne negro” poderá te pegar no curto-médio prazo! 

Boa semana a todos!"